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Braguinha para sempre
Morreu Braguinha. Dois meses antes do carnaval, três antes de completar cem anos. Mais uma perda irreparável à cultura brasileira, mais ainda para a popular carioca. Confesso que não sabia muito sobre a vida e obra do compositor. Por isso fui pesquisar, ler um pouco mesmo. Choquei-me com minha ignorância. O cara é um cracaço, um gênio, que compôs por mais de 50 anos, sem parar.
Sabia, por exemplo e por paixão, que Braguinha tinha sido o responsável maior pela quebra do jejum de 13 anos da minha escola de samba, a Mangueira. Foi na inauguração da Sapucaí, em 84 (tinha um ano), quando, inspirada pelo enredo "Yes, nós temos Braguinha" (parodiado de sua música "Yes, Nós temos bananas!"), a verde-e-rosa derrotou a Portela e levou o supercampeonato simplesmente porque, empolgada pela canção, a Mangueira deixou os carros na Apoteose e decidiu voltar cantando e sambando, levando o público (meu pai estava lá) ao delírio.
Braguinha das marchas, da época que carnaval era carnaval de rua, não um camarote da Caras onde se ouve hip-hop. Braguinha das composições com outro craque, Noel Rosa, da "tourada em Madrid", cantada em verso e prosa pela torcida brasileira (meu avô estava lá) na goleada contra a Espanha na Copa de 50, no Maracanã. A não menos famosa "Balancê" também é cantada com gosto no estádio, ao menos pela minha torcida.
Das músicas infantis para o cinema, como as do "Pinóquio", "Chapeuzinho Vermelho", "Os três porquinhos", entre outros. Da letra de 'Carinhoso', uma das músicas nacionais do século XX, regravada por um sem número de intérpretes. E, claro, Braguinha da "Chiquita Bacana", "Copacabana" e "Linda Lourinha". Por isso nada mais justo que a Mangueira do Amanhã, a escola de meninos da comunidade, o reverencie como tema de enredo de 2007. Que Max Lopes, carnavalesco daquele troféu de 84 e de volta à escola desde 2001, preste reverências para o mundo inteiro ver.
A morte de Braguinha fecha o ciclo de ouro do Rio de Janeiro. Ao lado de Tom, Vinícius, até Jorginho Guinle, Braguinha fez da cidade uma referência de vanguarda cultural-ideológica jamais vista no Brasil. Impossível não pensar em carnaval e não pronunciar seu nome. Por isso é chocante quando passamos pela sua estátua em Copacabana e a pessoa do carona pergunta: "Quem é esse cidadão?". O carnaval, o popular, o de rua, o da alegria contagiante e sincera, acabou. O Rio de Janeiro também.
Escrito por Fábio Balassiano às 02h53
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Auto-cobrança na sexta
Errei no trabalho. Pela primeira vez, um erro feio. Uma letra, e alterei o nome de um programa. Pode parecer pouco, babaca, mas considero um equívoco imenso. Apesar de admitir o meu erro, pedir perdão e seguir em frente, me cobro muito por isso. Foi assim quando escrevia, é assim agora na programação.
Não considero isso ruim. Acho que só me cobrando posso evoluir, e vou evoluir com as minhas cobranças - e meu nível de exigência é alto, muito alto. Talvez o nível de auto-cobrança seja demasiado, excessivo, fora do limite, mas prefiro pecar por alto.
Há problemas, porém: nem sempre as pessoas que trabalham com você possuem este grau de exigência, ou excelência com seus respectivos trabalhos, e seus erros passam a ser constantes. Na redação era o mais comum. Ser o que mais se cobra em um grupo tem disso: você acaba se colocando no lugar dos outros e pensa: "porra, esse maluco está se perdendo e não faz nada para melhorar, é isso mesmo?".
Dentre os problemas, o maior é este: o dia está extremamente quente, absurdamente seco, e é sexta-feira. Aí é brabo: você sai tarde do trabalho, irritado com seus equívocos, sua quando sai do ar condicionado, pinga quando desce do 461, está molhado quando pisa na Aníbal, parece que saiu do banho quando chega em casa.
A vontade era conversar, trocar uma idéia, falar das angústias, ouvir as dela, pegar um DVD, apertar a mão fofinha e dormir em seus braços. Mas que braço, que mão, cara-pálida? A vontade passa pra revolta, a angústia passa a ser uma cólera: quero sair, gritar na rua, socar a parede, bater a cabeça na porta. Mergulhar no mar e não voltar tão cedo é a melhor solução. Acaba com o calor, ao menos.
Escrito por Fábio Balassiano às 21h36
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Por cima dos panos
Não sei bem sobre qual tema escrever. Meu primeiro show de "axé-music"? Não acho que tenha relevância. O fim de um relacionamento alheio? Afe, sai fora, você não é da Caras. O mais palpitante assunto da semana é o aumento proposto, e aceito pelo fulgurante Senado, para os nossos brilhantes parlamentares. Não há como fazer um texto desse sem ironia, revolta, indignação, sarcasmo. Vamos começar então: os quase 100% de ganho só podem ser pelos bons serviços prestados.
Zuenir Ventura, n'O Globo, disse que é um mensalão legalizado. Não é. Mensalão, como o conhecemos, foi ilegal, por debaixo dos panos, contra as regras do jogo enfim. Neste caso, o nosso Banco Imobiliário, o Senado, aprovou as regras, o aumento, com pompa e honras. Aldo Rebelo, o "homem da Câmara" que eu pensava ser sério, aplaudiu o "ganho da classe" ao lado do não menos podre Renan Calheiros.
O homem do TSE disse ser inconstitucional. Também não é. Se alguém, canhestramente, propôs a bandalha, e outros compactuaram com o voto, está valendo. Marco Aurelio, do TSE, e Lula, o presidente, deveriam se mexer para barrar esta monumental safadeza antes de fevereiro. Diz muito sobre políticos de um país quando uma medida dessas é adotada dois meses depois das eleições, antes da "troca da guarda" para novos deputados e senadores, antes da votação do orçamento. Guido Mantega, da Fazenda, ficou sem resposta às loucuras dos animais do Planalto.
Se fosse na Argentina, carros já haviam sido queimados, panelas voariam na casa do Néstor, protestos comeriam as ruas. Não falo da França, para não mudar de continente e de Mundo. Aqui, não. Ouvimos, impávidos, a mais um escândalo, e não fazemos nada. Brasília, de fato, é longe. Por si só um protesto contra os "homens de preto do Planalto" torna-se dificultado, mas não deveria ser impeditivo. O Brasil somos um país cordato, tranqüilos, realmente como se nada tivesse acontecido.
A Bruninha, lá no trabalho, fez as contas: "poxa, eles vão ganhar quase xxxxxx vezes mais que eu". No que eu respondi: "só que quando você faz besteira, e é raro, é uma merda privada. As deles, sempre públicas".
p.s. Não deu nem pra escrever sobre o medíocre embate entre os Ministérios da Cultura e dos Esportes, hein... Que nação, que nação!
Escrito por Fábio Balassiano às 13h43
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Próximo
O ano de 2006 entra em seu último mês. Neste pouco produtivo fim de semana pensei: dois sub-empregos, um temporário e, por fim, uma efetivação - na minha opinião, merecida, claro. Fim de um relacionamento que já tinha terminado, dezenas de mulheres conheci, inúmeros novos amigos passaram a me aturar, uma viagem inesquecível, uma família criada e perdida em 90 dias, a retomada de minha paixão pela leitura e pelas letras de Arnaldo Antunes (estou ouvindo enquanto escrevo, aliás). De fato, este ano teve muita história.
Como todo maluco, já fiz planos para o próximo. Quero me estabilizar no emprego, evoluir profissional e pessoalmente, voltar a viajar e arrumar outras fontes de renda para começar a pensar em morar sozinho. Os "comos" ainda estão em fase de estudos. Claro, encontrar uma namorada está fora de cogitação. Aprendi, na prática e através dos amigos, que isso acontece, e vou acreditar neles. Não que eu creia, de fato, mas porque cansei de vasculhar no mercado feminino.
O que pode me reservar 2007? Uma vez, na China antiga, um homem presenteou o Imperador com um livro de duas páginas, que o cidadão não abriria tão cedo. Anos depois, um surto de peste, a doença de sua filha e a crise entre as aldeias locais fizeram com que o Imperador lembrasse do regalo. Lá estava, na primeira folha: "Fique calmo, isso vai passar". Passou. Dois meses depois, o surto tinha ido, a filha estava curada e casada, a paz tomou conta das comunidades. Ele lembrou do livro de novo. Dizia: "Não se anime muito. Isso vai passar também".
Foi assim exatamente de 2005 para 2006 comigo. Após um dos meus melhores anos seguiu-se um furacão de péssimas notícias. Espero, contudo, que meu 2006 seja o prenúncio de novas realizações no ano que está por vir, e não o começo de uma nova tempestade.
Escrito por Fábio Balassiano às 20h27
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Rio de sempre
Quarta-feira, 9hs da manhã. Preciso de dois coletivos pra vir ao trabalho. Normal, tranqüilo. Em frente à Travessa, esperei o 432. Um menino, com blusa de colégio público, me olhou. Doze anos, por aí. Chamei o busão. O menino veio junto, olhando para o meu walk-man amarelo, quebrado, com problema nos fones, que mal sintoniza as estações corretamente (a Pan, 102,1, fica perto do 105 no Dial manual...).
Sentei ao lado de uma menina, linda aliás, para evitar problemas. Ela saiu na General Osório, e o tal menino sentou-se ao meu lado, mirando-me sem parar. Antecipei minha troca de busões e, pouco antes de o sinal abrir, puxei o sinal e fui apanhar o 426 no ponto inicial.
Passaram-se cinco minutos e, surpresa, quem aparece? Olhando-me, com ódio no rosto, pensando na tática, foi medíocre. E o busão não chegava. Perdi a paciência, aproximei-me, tirei o fone que prestava do ouvido e disse:
- Qual foi, cara, o quê você quer?
- Eu? Eu? nada!
- Não fode, moleque, você tá me seguindo desde Ipanema. Tu acha que sou idiota?
- Eu? Eu? Eu?
- Já tive a sua idade, moleque, fui que nem você, metido a esperto, só que usei a sua camisa pra estudar e trabalhar, não pra outras coisas.
- Eu? Eu? Eu?
Entrei no 426 ao lado dele, sentei antes da roleta pra não ter erro. Menti ao dizer que estudei em colégio público, evidentemente. Mas a atitude do menino, às 9hs da manhã, me deixou furioso. Posso ter errado, me arriscado, mas acho bem provável que essa porra de cidade esteja me deixando pirado.
Escrito por Fábio Balassiano às 10h00
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Somos racistas?
Meu irmão tem 19 anos e não deixa de ver um episódio de 'A turma do Didi'. Até aí, nada demais - gosto não se discute. No domingo passado, porém, ele me disse: "O Jacaré acabou de ganhar um prêmio de melhor comediante negro do Brasil". Não conheço o trabalho do Réptil, seja como dançarino ou em qualquer outra atividade, portanto não posso julgar a escolha. O que me parece absurdo é a categoria: "Melhor comediante negro do país". Isso não é segmentação, é etnocentrismo ao contrário.
Ao contrário dos Estados Unidos, onde há segmentação para tudo (como li na semana passada, há, por exemplo, um clube para mães de homens que namoram meninas com filhos na Philadelphia, com mais de duas mil filiadas), o Brasil, como sempre, copia mal o modelo. Como aprendi neste último período escolar, segmentação pode ser etária, regional, estadual, sexual, e por aí vai. Jamais étnica. Aliás, chamar etnias de raça é outro erro absurdo brasileiro. Quem tem raça é cachorro, pois a constituição genética de um Labrador é absurdamente diferente da de um Pitbull, por exemplo. Nós, seres-humanos, possuímos 0,0000001% de diferença genética.
Por isso estranhei a natureza do prêmio. Selecionar o melhor comediante é lícito, justo, merecido. Mas por quê negro, ou branco? Um artista deveria, ou deve, ser premiado pela sua atuação, pelo seu trabalho, não pela combinação destes com sua cor de pele, que nada tem a ver com etnia, aliás. Uma boa solução para estes que pensam em chamar de raça o que é etnia é o livro "Não somos racistas", de Ali Kamel. A confusão não é só dos premiadores, mas do país inteiro, e evidentemente estou falando do absurdo sistema de cotas.
Dizem que os Estados Unidos são o país mais etnocentrista do mundo. Pode até ser. Mas o Brasil inaugura uma nova era do gênero. O etnocentrismo ao contrário, os prêmios por etnias, as escolhas por cor de pele. O Brasil sempre está atrasado. Se era para estarmos à frente em alguma coisa, que não fosse nisso...
Escrito por Fábio Balassiano às 17h11
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