Um pouco sobre nada, por Fábio Balassiano


Testes

Não há teste mais boçal do que o que fiz hoje no Detran, na renovação da minha carteira. Uma mula se sairia tão bem quanto eu, e isso não é um desrespeito ao animal, não me julguem mal. Em um dado momento, você é perguntado se faz uso de medicamentos proibidos, de drogas ou se dirige com muitas doses de alcool na fuça. Dá vontade, mas muita vontade, de dizer que sim, que o Prozac não sai de sua mochila, que eu sou o novo João Estrella da cidade do RJ (como se ela, a cidade, precisasse...) e que eu só consigo dirigir depois de tomar 34 cervejas do Devassa... Por favor, né...

O exame é tão ruim, mas tão ruim que ao final da "consulta" a moça me diz: Fábio, você está aprovado. Não há nada de errado com você. Aí eu tive que reagir: "Tem certeza, doutora?", e saí rindo. Francamente, né...

Escrito por Fábio Balassiano às 01h19
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É guerra

Hoje saiu uma matéria no Globo com um singelo dado: foram 500 mil homicídios, eu disse homicídios, entre 1996 e 2006. Eu só queria entender aonde é que existe guerra, onde é que existe uma situação "limite", como gostam de chamar alguns boçais?
E mais: o brasileiro precisa falar de se meter na política externa dos outros como se fora o dono da situação. Tá mais do que na hora de cuidar do nosso telhado aqui, que anda mais quebrado que minha conta bancária... 

Escrito por Fábio Balassiano às 01h12
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Vai

- Desculpa, eu preciso ir. To atrasada. Depois a gente se fala melhor. Tchau

Você repara, olha e conjectura alguma coisa inteligente pra falar. Solta um "valeu, então" e no ato se arrepende, pensa no que deveria ter dito. Não funciona mais. Roda cinco minutos sem ter para onde ir, pensando no caminho que o lábio dela fez entre suas duas bochechas, querendo que o ponto final na verdade fosse o meio do trajeto, e que ali, de fato, fosse um ponto final. Ponto final de um começo. Não foi.

Reclama consigo, pergunta o porquê de tanta timidez e conclui que não tem mais jeito. Sua vida é feita de lamentações, coisas que poderia ter feito, palavras que deveria ter dito, conquistas que poderia ter conseguido, tristezas que deveriam ser alegrias...



Escrito por Fábio Balassiano às 17h01
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Seta

Cansa, sabe.

Você volta pra casa cansado-mas-animado. Canta no carro. Balança as mãos. Tenta se empolgar pra night que não sabe nem se virá. Até que a cerca de dois quilômetros de sua casa um imbecil que pilota um carro amarelo simplesmente pára na sua frente, na pista do meio e sem sinalização. Uma quase batida. Cheguei a encostar no botão para destravar a porta para tomar satisfações. Irado, recuei e apenas gritei que ele estava, e estava mesmo, maluco. Sabe o que ele disse? Desculpas, né? Claro que não.

- Ihhhhhhh, se tá nervoso vai pra casa descansar, meu filho - falou o fdp, balançando a cabeça para as duas idiotas que entraram no táxi que acabaram de chamar no meio da rua.

Entrei em casa cabisbaixo. Não é possível tanta desfaçatez, tanta idiotice. O volume de calhordas e canalhas que existe no Rio de Janeiro é impressionante, sufocante, alucinante. Não há Dalai Lama que tenha paciência, não há sexta-feira com possível beijo na boca que resista.

Rio, eu cansei de você.



Escrito por Fábio Balassiano às 23h55
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Loucura

Todo mundo tem uma mania, uma superstição. Eu só tenho uma que considero meio maluca. E é no futebol. Até meu time perder (comigo na platéia), só vou ao estádio com rigorosamente a mesma indumentária. Bermuda azul, cueca cinza, meia da Ralph, tênis branco, camisa com número 29 (data do meu aniversário) sem o D da Unimed, chave do carro e celular no bolso esquerdo e a carteira no direito. Rigorosamente assim. Não tem erro, é vitória quase certa. Quase. Quando dá errado e a sequência fantástica se quebra, eu troco meia, cueca e bermuda. Alguma combinação, que ainda não desocbri, deve fazer com que meu time não perca jamais, e eu vou descobri-la.

Só que às vezes, confesso, eu perco a linha. No sábado, na estréia do campeonato, eu comprei uma bala de melância antes da partida. E ganhamos. Não é necessário dizer que a bala do bala teve participação fundamental (eu juro que acredito nisso!). Hoje, antes de entrar no Maracanã, eu só me acalmei porque encontrei um vendedor para adquirir a mesma poção mágina de melância. Deu certo. Meu time virou o jogo, e eu acredito que tive alguma participação nisso. Se houvesse perdido e eu não tivesse comprado a bala, a culpa não seria do Gustavo Nery, mas minha evidentemente.  

Pode não parecer, mas esse negócio de ser louco dá trabalho, viu...



Escrito por Fábio Balassiano às 23h33
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Ps eu te amo

Não gosto muito de escrever sobre filmes aqui. Porque, simplesmente, há pessoas que escrevem melhor que eu sobre cinema. Mas hoje vi P.S. eu te amo, com mais uma soberba atuação de Hilary Swank, a menina de ouro de Clint Eastwood. Desastres de produção à parte (o microfone da captação de som aparece inúmeras vezes, lembrando até as cenas do Costinha na Escolhinha do Professor Raimundo), eu só posso dizer que não devo ter visto obra mais tocante nos últimos tempos. Tirando este insensível aqui, a sala do Armazém Digital inteira chorou, e uma senhorinha do meu lado soluçava.

É engraçado que o filme mistura algumas fases da vida (o primeiro encontro, a paixão, o amor, as brigas do cotidiano, a morte, a tristeza pós-morte, a nova vida sem a pessoa amada e a saudade da pessoa amada) e constrói um puta mosaico não só da vida da personagem de Swank, mas de todos em geral. A morte, no caso, pode ser a metáfora de uma perda menor, sentimental, profissional, afetiva, e como as pessoas reagem a ela. Racionalizar a perda, entendê-la, não é tão fácil assim como parece para quem vê de fora.

Talvez por isso que "PS eu te amo" mexa tanto com a platéia. Porque todos já passaram, ou passarão, por alguma situação assim, em que o chão parece não existir mais, onde o amanhã não faz o menor sentido, onde a única razão para se viver seja a vontade de recordar. Vou parar aqui. Se você ainda não viu o filme, veja. E leve lenço.



Escrito por Fábio Balassiano às 18h33
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Vida fácil

Minha ex-chefe dizia ter medo de que minhas idéias se perdessem ao longo do tempo, por conta de tarefas burocráticas. Segundo ela, eu não sou uma pessoa operacional, mas criativa - seja lá o que isso signifique, e sabe-se lá com que grau de qualidade a palavra "criativa" tenha sido empregada. Nunca acreditei muito nisso, mas neste começo de 2008 tudo o que ela dizia passou a se concretizar: acho que já tive umas 5 ou 6 idéias que considero muito boas.

O problema é que existe uma coisinha sutil chamada 'pressão'. Familiar principalmente. Preocupo-me, claro, com meu futuro, mas acredito que as coisas vão vir naturalmente. Não é assim que agem, geralmente, aqueles que te deram o sustento durante os primeiros 24 anos de sua vida. E é aí que entra uma outra palavra, chamada 'dinheiro'.

Ainda não consegui, mas acho que preciso aprender a conjugar as palavras idéias e dinheiro juntas. Como disse há pouco tempo, não dá pra viver de amor e carinho...

 



Escrito por Fábio Balassiano às 18h35
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Artes

Nao existe definicao correta para arte. Isso eh ponto pacífico. Mas ontem fomos ao Museo de Bellas Artes daqui e fiquei intrigado. Depois de quadros lindos de Picasso e Miró, entrei em uma sala com projetos diferentes, Ulm ou algo assim. Nao dá pra entender, serio: nao da pra aceitar que na mesma galeria dos genios acima esteja isso (se vc nao consegue ver, eh um prato com ovos), ou uma série de barras que parecem de toblerone, ou 8 cadeiras rodeadas com luz. Nao da

Entre a incompreensao da genialidade e a falta de sentido do absurdo ha uma grande diferenca, e acho que eh o que se passou ontem, o que passa com figuras como Michel Melamed e outros fanfarroes, pra usar uma palavra da moda. Nego nao faz nada, fala bonito e como as pessoas tem vergonha de dizer que aquilo eh uma merda, fica por isso mesmo.

A minha definicao de arte, a minha ao menos, passa bem longe de cubinhos de toblerone.



Escrito por Fábio Balassiano às 15h26
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Os hermanos

Tinha curiosidade em sanar parte da dúvida sobre como os argentinos sao. Seria imbecil da minha parte dizer que com 5 dias eu descobriria, mas já dá pra ter uma idéia. Talvez pelos cabelos lisos, talvez porque o time da absurda maioria (arriscaria a dizer que o Boca tem 70% da galera daqui) ganhe algo quase sempre, talvez por vários talvez, mas eles sao sim um pouco mascarados. Nao sao franceses, mas sao.

O clima aqui segue insportável, e creio que com o dia de hoje, em que caminhamos duas vezes cerca de 20 quadras, devemos ter chegado a absurda marca de 20km percorridos em menos de uma semana. Nao, aqui nao é nem de perto mais maneiro que o RJ, mas algumas coisas impressionam: nao vi assaltos, nao vi sequer ameacas de assaltos; o número de livrarias assusta (o maluco aqui já comprou quatro...); e eh impressionante como o espanhol daqui é diferente do espanhol.

Eh isso. ontem teve bomonera, hoje o monumental, zoo e jardim botanico. ta maneiro.  



Escrito por Fábio Balassiano às 19h45
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BA

Aqui faz mais calor que aí, acreditem. É mais seco, com vento quente e nao tem brisa do mar pra aliviar. Pra piorar as coisas, tem mais paulista aqui que no Rio de Janeiro. Mais paulista, pernambucano, gaúcho, mineiro. Por aqui, tem mais brasileiro do que torcedor do River...

Mas, ao contrário do que podem dizer, a cidade é identica ao RJ. O centro é bem definido com suas lojas, já nos ofereceram boas mulheres por precos bem módicos e a pobreza é latente. Assim como aí, a cidade é belìssima, principalmente seus monumentos.

Em cada esquina há um, maior e mais bonito que o anterior. É isso.  



Escrito por Fábio Balassiano às 19h08
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Os talvez e a segurança

Hoje, pela primeira vez, conheci o Cirque du Soleil. O espetáculo, Alegría, é legal (principalmente a segunda parte) pacas, sem dúvida. Nunca tinha visto nada igual. Mas, sinceramente, eu talvez prefira o circo antigo, com cheiro de xixi dos animais e trapezistas.

A certeza vem de uma coisa: o tal do Circo de hoje foi no Barra Shopping, e não existe nada pior, nem mais insuportável, que um Shopping Center. Pessoas sem ter o que fazer e caminhando lentamente, muito barulho, imbecis que passam à sua frente e simplesmente param, impedindo sua passagem. Não existe, nunca existiu, nem nunca existirá, nada pior que este conjunto de lojas sob o mesmo teto, em que pessoas se amontoam para fingir que querem comprar algo...



Escrito por Fábio Balassiano às 21h47
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